Como a construção civil ajuda a explicar a crise brasileira

O Brasil passou por uma grave recessão que ainda deixa consequências. Oficialmente, a recessão acaba no fim de 2016, mas o que se vê depois disso é uma recuperação lenta, insuficiente para reparar as graves perdas dos anos anteriores. Depois da saída oficial da recessão, o PIB teve seguidos e pequenos crescimentos trimestrais em 2017 e 2018. Até que, no primeiro trimestre de 2019, o resultado voltou ao negativo e mostrou o quão lenta pode ser a retomada. O PIB estava, no primeiro trimestre de 2019, 5,26% menor do que o patamar de antes da crise. Mas esse é o número geral da economia, uma média entre vários setores que foram mais ou menos prejudicados. Durante esse processo de crise - juntando o período de retração quanto na recuperação insuficiente - poucas atividades sofreram mais do que a construção civil. Percentualmente, a queda chega a ser 6 vezes a retração do PIB. É também mais do que o dobro do número da indústria geral, grupo que nas contas do IBGE engloba a construção. Enquanto a economia tem uma leve recuperação, a situação na construção não para de piorar. É verdade que o PIB do setor já caiu de maneira mais brusca, mas os sinais de retomada ainda não apareceram nos números do IBGE. AS PERDAS DESDE O INÍCIO DA RECESSÃO   E a crise na construção tem um efeito danoso no resto da economia também por causa do emprego. O setor usa muita mão de obra e historicamente é espaço para trabalhadores com menos qualificação. Em 2013 e 2014, a construção civil chegou a empregar mais de 3 milhões de pessoas com carteira assinada no Brasil. Isso significa que pouco mais de 7% dos trabalhadores formais do país estavam na construção. Mas com a crise as demissões aconteceram em massa. Entre outubro de 2014 e dezembro de 2016, a construção civil fechou uma média de 37 mil vagas de trabalho todo mês. MÊS A MÊS   O número total de trabalhadores era em maio de 2019, no resultado mais recente do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), 1,025 milhão menor do que cinco anos antes. Para se ter uma ideia do peso da construção no fechamento de vagas formais, no mesmo período a economia brasileira como um todo perdeu 2,18 milhões de postos com carteira assinada. TOTAL   Histórico Desde o início da atual série histórica do PIB a construção civil viveu momentos bastante distintos. Entre 1996 e 2009, o crescimento do setor esteve quase sempre abaixo do acumulado pela economia como um todo. Ou seja, a construção mais atrapalhava do que ajudava na variação total do PIB. Uma mudança brusca acontece depois da crise de 2008. O grande avanço da construção civil no Brasil aconteceu entre 2009 e 2014. O período coincide com o momento em que o governo federal investiu pesado em programas como o Minha Casa Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento. Além disso, foi o momento em que o país se preparava para receber a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Depois de 2014, além da crise econômica vieram as investigações de corrupção da operação Lava Jato que descobriram o papel central de grandes empreiteiras em fraudes de licitações e pagamentos de propina. Somente a Odebrecht, que era a maior empreiteira do país, demitiu cerca de 70% de seus funcionários nos anos seguintes. A empresa está em processo de recuperação judicial. Entre idas e vindas, o patamar atual da construção civil é muito parecido com o que existia logo antes de o governo implementar os programas de infraestrutura. CRESCIMENTO E QUEDA DA CONSTRUÇÃO CIVIL   A confiança dos empresários Mesmo que as empresas não tenham conseguido recuperação significativa, a confiança dos empresários tem melhorado nos últimos anos. Desde o início do governo de Michel Temer, os indicadores da Sondagem da Construção Civil, medidos pelo Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) têm subido. O Ibre pergunta a empresários do setor sobre a avaliação que ele faz do momento atual e sobre as expectativas para o futuro. Uma mescla desses dois resultados forma a confiança. A confiança da construção, no entanto, segue bem abaixo do patamar pré-crise e abaixo também de outros índices setoriais, como o do comércio e do consumidor, por exemplo. CONFIANÇA SEM RETOMADA   Sobre a crise da construção civil e seus impactos na economia como um todo, o Nexo entrevistou dois economistas. Fernando Camargo, sócio da LCA Consultores e especialista em infraestrutura Rodolpho Tobler, coordenador de Sondagens do Ibre/FGV Qual o papel da construção na crise e na lenta recuperação do país? FERNANDO CAMARGO O impacto na construção foi muito mais intenso do que no restante da economia. E isso é típico do setor, ele é muito mais volátil e reage muito mais intensamente a qualquer sinal, para cima ou para baixo. Ele é um setor tipicamente ligado a crédito, confiança, expectativas em geral em relação a sustentabilidade dos negócios. Qualquer sinal de problemas na demanda, na capacidade de pagamento das pessoas. Há os equipamentos de infraestrutura que, na ponta, tem uma tarifa que será paga pelo consumidor final. Então na ponta é a demanda, era uma previsão de fluxo em rodovias, aeroportos que foi muito menor do que se esperava. Na construção de residência, a dificuldade é a capacidade de endividamento das famílias que se deteriorou muito. Isso explica um setor parado. Mas há um elemento novo, diferente, nessa crise, uma tempestade perfeita. Além do financeiro, há uma crise política, das instituições, uma crise de compliance, falta de confiança nas empresas. Na medida que isso aconteceu, algumas empresas saíram completamente do jogo. No lugar delas, não entrou ninguém imediatamente, entraram outras vagarosamente, sem apetite para risco. Há tempos a gente convive com uma taxa de juros básica, extremamente baixa para os nossos padrões, e ainda assim não acontece um ciclo de alta do crédito. Já era mais do que hora de a construção imobiliária, pelo menos, ser retomada. É uma grande geradora de empregos. E isso não acontece porque há um grande estoque vindo da crise, as famílias ainda estão endividadas e o spread bancário é elevado. RODOLPHO TOBLER A gente percebe que o setor da construção acabou sofrendo um pouco mais também porque ele vinha num momento muito forte. Havia investimento privado, investimento público, um boom de construções e empreendimentos. Tinha Minha Casa Minha Vida, PAC, isso impulsionava tanto habitações quanto infraestrutura. Com a recessão, a fonte secou para os dois lados. Nessa crise específica, não tinha o governo para fazer medidas anticíclicas, para investir na economia para tentar sair mais rápido da crise. Houve ainda a questão das empreiteiras envolvidas da Lava Jato, que tinham uma participação grande, em obras públicas e privadas. Foi um elemento a mais. Nesse período de retomada, o setor tem encontrado muitas dificuldades. Enquanto não houver uma segurança maior de que as coisas vão andar em economia, não há motivos para que alguém faça investimento em construção. E o governo continua sem condições. Havia a expectativa de que 2019 fosse um pouco melhor, com concessões e leilões, mas isso não vem se concretizando. Isso em um cenário de taxa de desemprego muito elevada, bastante gente sem trabalho, o que acaba complicando a retomada da economia. E a construção tem parte nisso porque ela é muito empregadora. Por isso o cenário ainda é de muita cautela, não há resultados expressivos em 2019. No monitor do PIB aqui do Ibre, quando se vê o investimento, ele é puxado por máquinas e equipamentos, quase não há construção. É muito difícil uma recuperação sustentada enquanto não houver melhora na construção. O que falta para a melhora de confiança se transformar em crescimento e contratações para o setor? FERNANDO CAMARGO Quase sempre os governos usaram estímulos à construção para sair de crises. Se a retomada é iniciada pelo setor de construção, a velocidade e o impulso tendem a ser maiores, vai mais longe o ciclo de crescimento porque a capacidade de geração de renda do setor é muito maior. Mais salários, mais poder de consumo e todo o mercado retoma. Para retomar a infraestrutura, precisaria acelerar o processo de digestão dessa crise. Acelerar a penalização das empresas para que elas pudessem voltar ao mercado o quanto antes, porque se reúne expertise, conhecimento, capacidade de fazer projetos. Não tem bastado substituir essas empresas por outras. Por não poder contar com as empresas, está só na mão do governo estruturar projetos. É pouco, o governo não consegue. O governo já não é mais um contratante, só poderá voltar a ser quando resolver a questão fiscal. Então precisa, pelo menos, montar projetos. Na construção de imóveis, há sempre medidas microeconômicas que podem desburocratizar. O que não dá é para deixar como está. RODOLPHO TOBLER Houve uma melhora a partir de 2016, mas ela é a com o patamar mais baixo na comparação com outros segmentos, a que está mais longe dos 100 pontos. Por mais que tenha havido crescimento, é muito tímido. A gente tem percebido que ainda há um grau de incerteza muito grande que prejudica muito a recuperação das empresas. É muito difícil, em um cenário com incerteza elevada, tomar decisões tão fortes como a contratação de pessoas e investimentos. Não são ações que dá pra desfazer tão fácil, são decisões importantes que exigem clareza. O que a gente espera é que com as reformas, com a economia melhorando um pouco, a parte fiscal do governo recuperando, tudo contribui para que o setor da construção consiga ter um pouco mais de clareza sobre o que vai acontecer nos próximos anos. Só a reforma da Previdência talvez não seja o suficiente para uma recuperação rápida. Mas uma recuperação fiscal já contribui bastante para que o setor possa avançar nos próximos meses e anos. Talvez não no curtíssimo prazo, não na velocidade ideal, mas ajuda a voltar a crescer sim.

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